terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O silêncio aqui faz muito barulho. É como se o calor roubasse cada espaço de pensamento seu e colocasse o amarelo alaranjado. Ele também sabe disso e caça mosquitos e dorme até a hora do silêncio de verdade chegar. Nessa hora são ditas as verdades. Nessa hora o inconsciente te leva pra onde vc deve estar. A outra hora é apenas a realidade, silenciosa, barulhenta, quente e amarelo alaranjada.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Saudades é uma palavra que eu sentia quando não tinha culpa. E culpa é algo que corrói até o último rastro de sonho. Já disse outra vez que acordar é vestir outra roupa, a roupa do dia a dia, pouco a pouco abondonar o que somos em sonho, a alegria de ser outro oniricamente. Ao se acordar, vem a roupa e rasga tudo. Ainda mais se for feita da mais fina linha de culpa. Ela te enreda enreda até ficar muda. Nem um passo, nem um gemido. Queria um dia sem pedir desculpas.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Copo de cólera

As palavras saiam cínicas de sua boca. Não era algo bonito de se ver. Logo ela. Ela que sempre quis bancar de correta bancando a cínica e atraída pela ironia. Não saem, simplesmente, não saem como são. Pra isso elas vão se transmutando, ganhando ares de outras. Aí reside o mistério de sua fala, aí começa sempre a confusão de sua relação amorosa. O não conseguir lidar com a pureza da realidade, ou melhor, não querer falar pra não dar a realidade ao que ainda está perdido em alguma estrada por aí. Ela tá sofrida, sente. Sofrida como um estado físico de origem amplamente emocional. Ela pode ver isso em suas fotos. Chão de areia, mar ao fundo, lugar bonito de se ver, mas a foto é cínica e seu corpo hipócrita. Ela viu tudo ali. Toda a vida de sua mãe passou num gesto seu, num abafamento de fatos, num deixa pra lá, temos que não provocar, ficar quietas. Justamente o que ele mais quer. O incompreendido homem em sua posição confortável de homem, sentado em sua poltrona lendo seu jornal verbalização suas intolerâncias transmutadas por inteligência e engajamento. Homem de grandes mãos que fingem que não sabem a força que têm. Mãos que falam por si só, tacam logo um travessão e se perdem de diálogo, pra logo depois virarem mãos que se vitimizam, mas mãos que, já ajudadas pela língua, humilham, distorcem e dilaceram o ser de quem está ao lado uma vida. Mas as mãos dela sofrem. Nessas crises não há dialética, o instantâneo. E são nesses momentos não dialéticos que as mortes domésticas ocorrem. Ela mataria por ela? Ou na verdade ela está matando pela raiva? Sentir raiva é cansativo e ela leva toda uma vida cansada. As marcas, las Magas somos muitas por trás dessas mãos confortavelmente vivendo sua vida de homem. Somos muitas e voaremos. A vontade dela era ser engolida por um verde que cheirasse à vida. Um verde molhado que poucas vezes sentiu. Como num livro de Raduan Nassar ou numa tarde de uma conversa francamente virtual. Esse verde que muda a vida. Ela se sente muda na vida neste momento. Não quer dar passo algum. A raiva a consome. Raiva de tudo. Quer ficar verdejante só, pra sempre, com ela e quem sabe um broto seu, só isso. Amar não tá pra peixe, talvez nunca estivesse, seus exemplos não são muito contundentes. Vamos logo jogar na conta do machismo que faz sua vítima mais uma vez. Ela é uma porque vai se falar em respeito a la Maga. Só aqui ela se calara. Nada voltará a ser como antes, se é que já houve um antes. Entrar na briga de outra pessoa, mesmo que seja sua pessoa, não vale a pena quando a pessoa já desistiu de si mesma aha muito em prol de um tal amor que na verdade é transmutação de outra coisa. Amor incondicional não é sua praia, ainda bem. Não tem disposição nenhuma pra deixar seus sonhos por outro alguém. Dizem que isso é ser auto centrada. Não, é raiva mesmo, obrigada.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Tic tic tic...ops. não. Não há mais esse som no deslizar dos polegares modernos sobre as telas. Mas a comunicação ainda romantiza esse som. Um símbolo da distância. Em tempos de distância deve -se aprender a estar só. Mas como fazer isso frente à disponibilidade das mãos? Algo complicado. Talvez nem pra todos. Mas pra mim é extremamente cansativo ficar longe de quem está a todo dia dividindo. Cansativo. E superficial. Um ponto de vista. As conversas não se aprofundam. Tem- se uma espécie de controle, de relatório, de... Ao mesmo tempo qualquer letra pode ser qualquer coisa é o clima fica tenso. Algo cansativo. Mas não sei se consigo lidar com o silêncio também. No fim, nesses tempos de distância eu queria mesmo era uma distância de mim mesma. Me ouvir mais, quietinha. Sempre quero isso, más nunca consigo. Dilemas da vida moderna. Bobos e cansativos.

domingo, 23 de outubro de 2016

Sinto falta de escrever. Escrever sobre o que me passa e o que em mim fica. Escrever pra se auto compreender no ato. Escrever pra construir e destruir fantasmas. Talvez agora inaugure uma fase de escrita um pouco mais íntima do que de costume. Um pouco mais sincera. Tenho vários caderninhos com esse tipo de escrita. Mas quero fazer o mesmo neste caderno virtual pra compartilhar. Talvez esteja mesmo carente. Precisando me reconectar com meus amigos distantes. É isso, justificado. Comecemos.

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Vira e mexe me vem essa sensação. Essa nostalgia que alimenta a ilusão do que um dia eu fui. E fico sentindo falta de mim mesma, desconhecendo-me no espelho. Sinto falta da maneira que levava minha vida em outro lugar, onde construía com os vizinhos amizades gostosas. Os vizinhos eram meus principais amigos e sinto muito a falta disso. Tive uma infância e parte da adolescência cheia deles. Cheia das brincadeiras e das visitas descompromissadas de suas casas. Leve, sem se preocupar. Mas a relação com os amigos de escola era diferente. A entrada em casa não acontecia, por preocupação da minha mãe. A entrada na vida também não. Eram dois universos separados, diferentes. Eu era diferente nesses universos. Uma época da vida isso foi diferente. A partir do CEFET minhas principais amizades passaram a ser de lá. E também foi uma das épocas mais felizes de minha vida. Agora onde estou as amizades não estão mais tão presentes em nenhum dos universos. Sempre fui uma pessoa complicada pra amizades. Sensível e exigente demais. E agora parece que barro tudo que pode chegar a mim. Me escondo. Aquela síndrome que já percebia na adolescência e foi incompreendida em confissão por um primeiro namorado, parece ter se alojado e ficado estável. Eu mesma evito meu crescimento com outras pessoas. É tão difícil sair desse estado, mas sinto quando ele vem chegando. Uma tristeza, uma raiva, um julgamento forte dos outros, uma arrogância talvez, um medo. E vai crescendo. Queria não ser assim. Mas hoje em dia acho que tenho deixado isso mais claro pra mim   e para os outros. Pode ser um passo a frente. Mas ainda o passo é pesado e fica tudo uma confusão. Não sei como sair disso. Nao sei como me permitir.